Foi Paulo que ajudou os primeiros cristãos a perceber que o Evangelho era algo bem maior do que uma seita do judaísmo. Ele levou o nome de Jesus a todo o mundo romano. Foi o primeiro escritor cristão (quando Paulo morreu, os evangelhos ainda não tinham sido escritos).
O homem
Paulo é uma personalidade complexa. Tem um temperamento forte, reacções bruscas e violentas. A prudência e a calma não eram as suas melhores qualidades. Aberto, generoso, impulsivo. Não era fácil conviver com Paulo: chocou com Pedro em Antioquia, desentendeu-se com Barnabé a respeito de Marcos, teve discussões muito violentas com os judaizantes de Corinto…
Apaixonado e cheio de ternura para com os seus amigos fiéis, ele precisa de sentir a confiança de quem o segue. Mas é tremendamente sensível diante da ingratidão. Está consciente do perigo de um amor demasiado possessivo.
Entrega-se de corpo e alma à sua missão. Luta com todas as forças pelos seus ideais. É um modelo de cristão comprometido. Com a mesma energia com que, no início da sua vida, perseguia os cristãos, fundou comunidade de Cristo. Em ambos os casos, deixava-se guiar pela sua coerência religiosa.
O apóstolo
Paulo sente-se chamado, “alcançado por Jesus” (Fil 3, 12) no seu encontro com Cristo no caminho de Damasco. Desde esse momento vai viver a experiência de ser “chamado” a realizar uma missão salvadora. Não se sente um convertido porque entende que seguir Jesus é a forma certa de ser judeu. Até ao fim dos seus dias vai sentir-se judeu e entende o cristianismo como a plenitude do judaísmo.
Paulo sente que a sua fé nasce do encontro imediato com Cristo. Ele sabe que a sua vocação é uma graça de Deus por Jesus (Gal 1, 13-16). Paulo chega à fé depois dos Doze. E o núcleo da sua teologia será diferente da daqueles que estiveram com Jesus nesta terra. . As suas reflexões centram-se no mistério da morte de Cristo (escândalo da cruz) e na força pascal da sua ressurreição; os ensinamentos e os milagres de Jesus tem menos peso. Paulo está mais interessado em mostrar como se vive em Cristo do que em recordar o que aconteceu com Jesus. A experiência pascal de Paulo leva-o a sentir-se penetrado pelo mistério de Deus e perdoado pelo amor de Cristo. A partir desta experiência, Paulo sente-se um apaixonado, um louco, por Cristo.
Apesar de Paulo considerar única a sua vocação, ele defende que não há outro evangelho que aquele proclamado pelos apóstolos. O seu evangelho não é coisa sua; é o evangelho da fé comum. Paulo chegará a ir a Jerusalém para manifestar a sua solidariedade com os apóstolos.
Rabino e grego
A formação de Paulo coloca-o na confluência de dois mundos. Ele é judeu e é grego. E soube exprimir a fé cristã nessas duas linguagens.
Paulo foi formado como rabino, como mestre da Lei israelita. Aprendeu a ler e interpretar a Bíblia hebraica. E pôs a sua sabedoria ao serviço de Cristo. Paulo consegue ver Cristo já presente em todo o Antigo Testamento. Ele não parte da Escritura para chegar a Cristo; da sua fé em Jesus ressuscitado, ele procura os anúncios da sua vinda e os sinais da sua presença, ocultos no Antigo Testamento. Na Bíblia, tudo se torna sinal de Cristo e da sua Igreja.
Mas Paulo é também grego. Conhece a forma de pensar da grande cultura ocidental. Em Atenas parte da veneração ao Deus desconhecido para chegar ao Deus de Jesus Cristo. Em todo o momento afirma os valores humanos e sabe apreciar o que de bom há na cultura do seu tempo (Fil 4, 8). A influência grega vê-se no seu modo de pensar e de escrever. Cita autores clássicos, recolhe conceitos do estoicismo (de moda na altura), usa os “truques” comunicacionais da altura…
Paulo, semita e grego ao mesmo tempo, vai sofrer o drama da incredulidade de Israel (Rom 9, 1-5) e antes de pregar aos gentios começa nas sinagogas.
Um santo apaixonado
Paulo dirá “Sede meus imitadores” (1Cor 11, 1). Di-lo com toda a humildade de quem perseguiu a Igreja e de quem experimentou o milagre da graça de Deus em si mesmo.
A sua santidade fascina pela força dos seus traços e pelos seus fundamentos:
· Santidade cristológica: apoia-se em Cristo, espera tudo de Cristo, vive em Cristo. Só quer “ganhar todos para Cristo” e espalhar “o bom aroma de Cristo”.
· Santidade apostólica: para isso foi chamado e para isso vive. Capaz de aceitar “converter-se em objecto de maldição, separado até de Cristo, se isso triuxesse bem aos meus irmãos de raça” (Rom 9, 1-5). Assombroso exagero de amor.
· Santidade lutadora: vive a vida como uma corrida, como combate e prepara-se com toda a espécie de treinos, esforços e renúncias (1 Cor 9, 27).
· Santidade profundamente humana: a graça não destruiu o homem. Continuam a aparecer as suas virtudes e os seus defeitos de temperamento.
É na sua vida de oração onde melhor se exprime a santidade de Paulo. Herdeiro da oração judaica, Paulo recolhe muitas vezes as suas fórmulas e transforma-as, dando-lhes uma cor “cristã”. A acção de graças tem um lugar importante. Paulo contempla o progresso das suas comunidades e encontra aí um motivo para a sua “eucaristia” (Rom 1, 8; 1Cor 1, 4; Fil 1, 3; 1tes 1, 2; 2Tes 1, 3…) A “solicitude por todas as igrejas” alimenta as suas orações de petição.
É o próprio Paulo que nos mostra o segredo da sua oração: “por causa de Cristo, tudo perdi e considero esterco, a fim de ganhar a Cristo e nele ser achado. Mas uma coisa faço: esquecendo-me daquilo que está para trás e lançando-me para o que vem à frente, corro em direcção à meta, para o prémio a que Deus, lá do alto, nos chama em Cristo Jesus.” (Fil 3, 8-14)
Este texto é um bom exemplo para perceber o que vai no coração de Paulo. O primeiro lugar cabe a Cristo, que tomou a iniciativa de chamar Paulo no caminho de Damasco; e Paulo responde tentando alcançar o seu Senhor. No texto nota-se a tensão entre o já para quem vive em Cristo, caminhando na fé, e o ainda não de quem aguarda o encontro pleno no reino do amor que não acabará nunca (1Cor 13, 13).
Missionário
Paulo entrega-se, de corpo e alma, a uma dupla missão: proclamar o kerygma ao mundo pagão (viagens apostólicas, bem relatadas no livro dos Actos dos Apóstolos) e a consolidação na fé das comunidades cristãs recém-criadas (através das suas cartas). Se Paulo só tivesse pregado, possivelmente a sua obre não teria durado mais que uns anos, já que as comunidades encontraram dificuldades inesperadas ao tentarem viver a fé num ambiente tão hostil.
Paulo revia as igrejas que tinha fundado. Seguia de perto os seus sucessos e fracassos. (2Cor 11, 8ss). Enviava-lhes os seus colaboradores, confiando-lhes numerosas responsabilidades. Paulo preparava o futuro de uma igreja que tinha de ser no mundo “coluna e base da verdade” (1Tim 3, 15).
As suas cartas não têm um objectivo sistemático. Paulo parte de problemas concretos e tentar ajudar para que a vida das comunidades respeite a mensagem do Evangelho. A sua preocupação é principalmente pastoral.