Desde que foi lançada, a série “Adolescência”, da Netflix, voltou a lançar o debate sobre o impacto das redes sociais na adolescência. Ao abordar temas como bullying, misoginia, radicalização online e o acesso não supervisionado à internet a produção tem sido elogiada por devolver à sociedade civil o debate sobre estas questões. No entanto, fará sentido tratar uma obra de ficção como um tratado educativo sobre a adolescência? Não poderemos estar a incorrer em interpretações distorcidas, avançando com soluções simplistas para problemas complexos?
Fará sentido tratar uma obra de ficção como um tratado educativo sobre a adolescência?
A redução da adolescência a um conjunto de situação dramáticas
A ficção, por natureza, realça o conflito e as tensões para captar a atenção do espetador. Isso pode criar a falsa perceção de que a adolescência é unicamente definida por crises profundas e eventos traumáticos. Embora questões como a pressão social, a influência das redes e a formação da identidade sejam reais, cada adolescente vive essa fase de maneira única, e tratá-la sob uma perspetiva exclusivamente negativa pode distorcer a compreensão do público e dos próprios adolescentes sobre o que estão a vivenciar.
Atribuição de responsabilidades sociais
Tratar uma obra de ficção como um tratado educativo traz ainda outro risco: atribuir responsabilidades sociais a uma produção que tem como principal objetivo o entretenimento. Ainda que os guionistas, realizador, atores e equipa técnica possam ter consultado especialistas, a série “Adolescência” não é um estudo científico sobre a juventude contemporânea. Usar uma série como base para políticas educativas ou discursos institucionais pode levar a soluções simplistas e até mesmo a generalizações perigosas sobre comportamentos juvenis.
A série “Adolescência” não é um estudo científico sobre a juventude contemporânea.
Reforçar estereótipos
Além disso, a narrativa da série tende a focar-se nos aspetos mais sensacionalistas da adolescência, deixando de lado a multiplicidade de experiências e contextos. Isso pode gerar um fenómeno de identificação seletiva, onde pais, professores e responsáveis educativos se concentrem apenas nos elementos problemáticos apresentados na ficção e ignorem outras variáveis importantes na vida dos jovens. Dessa forma, corre-se o risco de reforçar estereótipos e não considerar soluções baseadas em estudos reais sobre educação e desenvolvimento juvenil.
Papel dos especialistas
Por fim, assumir uma obras de ficção como referencial absoluto pode desvalorizar o papel de especialistas, pedagogos e psicólogos na compreensão da adolescência. Ao invés de confiar exclusivamente na narrativa de uma série de televisão, para formular abordagens educativas eficazes, é fundamental recorrer a investigações académicas e à experiência de profissionais que lidam diariamente com adolescentes.
A série “Adolescência” é, sem dúvida, um ponto de partida importante para reflexão e debate, mas é fundamental que a sociedade não caia no erro de tratar a ficção como verdade absoluta. Usar a série como ponto de partida para discussões pode ser benéfico, desde que complementado por uma visão mais ampla, fundamentada e crítica sobre os desafios e complexidades da juventude moderna.

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