À descoberta da Bíblia

"Desconhecer a Escritura é desconhecer Cristo" (DV, 26)

Aqui encontras os textos que compõem a brochura “À descoberta da Bíblia” na sua versão completa.

A sua leitura poderá ajudar-te, por um lado, a aprofundar algumas das informações e, e por outro, a despertar a tua curiosidade para saberes ainda mais sobre a Bíblia.

Boa leitura e boas descobertas! Que a Sagrada Escritura seja a alma da tua formação pessoal e catequética.

Deus gosta de Se comunicar.
Ele revela-Se à humanidade de muitas formas ao longo da história. A natureza manifesta a grandeza, a beleza e a sabedoria de Deus Criador. O céu, o mar, as montanhas e todos os seres vivos testemunham a presença de Deus e convidam-nos a reconhecer o seu amor.
Deus comunica-Se também ao coração de cada pessoa, através da consciência humana, inspirando o bem, a justiça e a verdade.
Outra forma importante de revelação acontece através da história do povo de Israel, onde Deus Se manifestou por meio dos profetas, sinais e acontecimentos marcantes.
No entanto, a maior revelação de Deus acontece em Jesus Cristo, que mostrou ao mundo o rosto misericordioso do Pai através das suas palavras, gestos e ensinamentos.
A Bíblia ocupa um lugar central nesta revelação. Ela reúne textos inspirados que testemunham a relação de Deus com a humanidade e transmite a sua mensagem de amor e salvação. Lemos a Bíblia com atenção e devoção porque nela Deus nos revela a sua ternura. Escutamos a sua Palavra para crescer na fé, na esperança e no amor. Nestes livros sagrados, Deus está realmente presente.

O que nos diz o Vaticano II

Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade, segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina. Em virtude desta revelação, Deus invisível na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele.


A Bíblia não surgiu de uma só vez, nem foi escrita por uma pessoa só. Ela formou-se através de um longo processo histórico, religioso e cultural que durou muitos séculos. Os textos mais antigos começaram a ser transmitidos oralmente no seio do povo de Israel, muito antes de serem postos por escrito. Estas tradições incluíam narrativas sobre a criação, os patriarcas, a libertação do Egipto, as alianças com Deus e a história do povo eleito.

Com o passar do tempo, especialmente entre os séculos X e II a.C., estas tradições foram recolhidas, organizadas e escritas, dando origem aos livros que hoje compõem o Antigo Testamento. Entre estes encontram-se textos históricos, legislativos, poéticos, sapienciais e proféticos. Muitos deles foram redigidos em hebraico, enquanto alguns trechos foram escritos em aramaico ou em grego. Mais tarde, vários desses textos foram traduzidos para grego na famosa tradução conhecida como Septuaginta, ou Bíblia dos 70.

O Novo Testamento começa a ser escrito poucos anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Os primeiros escritos são as cartas de Paulo a algumas comunidades cristãs. Ao mesmo tempo iam-se compondo os evangelhos. Os escritos do Novo Testamento foram todos compostos em grego. A lista dos livros que fazem parte da Bíblia, isto é que os cristãos consideram inspirados, chama-se cânon. Ela foi elaborada de forma gradual.

O que nos diz o Catecismo da Igreja Católica

Foi a Tradição Apostólica que levou a Igreja a discernir quais os escritos que deviam ser contados na lista dos livros sagrados. Esta lista integral é chamada «Cânon» das Escrituras. Comporta, para o Antigo Testamento, 46 (45, se se contar Jeremias e as Lamentações como um só) escritos, e, para o Novo, 27.


Os cristãos reconhecem que as palavras escritas nos livros da Bíblia são Palavra de Deus. Eles são inspirados por Deus. São palavras que vêm de Deus.

Deus, na sua infinita sabedoria e amor, quis comunicar-Se à humanidade e revelar o seu plano de salvação através de acontecimentos e palavras que foram progressivamente transmitidos e, posteriormente, colocados por escrito sob a ação do Espírito Santo. Por isso, a Escritura não é apenas uma coleção de textos religiosos ou documentos históricos, mas verdadeira Palavra de Deus confiada ao seu povo.

A inspiração da Sagrada Escritura é uma verdade central da fé. Reconhecemos que Deus é o autor último dos livros sagrados. Através da ação do Espírito Santo, Deus escolheu autores humanos, com a sua cultura, linguagem, personalidade e contexto histórico, para transmitirem fielmente aquilo que Ele desejava comunicar para a salvação da humanidade. Assim, a Escritura possui simultaneamente uma dimensão divina e humana: é Palavra de Deus expressa por palavras humanas.

O Concílio Vaticano II, especialmente na constituição Dei Verbum, ensina que os hagiógrafos (as pessoas que redigiram a Bíblia) escreveram inspirados pelo Espírito Santo, de modo que tudo aquilo que afirmam deve ser considerado afirmado pelo próprio Deus. Contudo, esta inspiração não elimina a liberdade nem a individualidade dos autores; antes, Deus serve-Se das suas capacidades e circunstâncias concretas.

A inspiração bíblica não significa um ditado mecânico, como se os autores fossem instrumentos passivos. Deus respeita plenamente a personalidade, inteligência, sensibilidade e experiência de cada autor, servindo-Se dessas realidades para transmitir a sua mensagem. A inspiração bíblica garante que a Escritura ensina com verdade aquilo que Deus quis revelar para a nossa salvação. Por isso, a Palavra de Deus continua viva, atual e eficaz na vida dos crentes e na missão da Igreja.

O que nos diz a Verbum Domini

Quando esmorece em nós a consciência da inspiração, corre-se o risco de ler a Escritura como objeto de curiosidade histórica e não como obra do Espírito Santo, na qual podemos ouvir a própria voz do Senhor e conhecer a sua presença na história.


A Bíblia deve ser lida com amor e interpretada com fé. É preciso perceber o que significam as palavras que lemos.

Para interpretar bem a Bíblia, reconhecemos que ela é, ao mesmo tempo, Palavra de Deus e palavra humana. Compreender a verdade do que está escrito na Bíblia requer atenção tanto à dimensão espiritual como aos elementos históricos, culturais e literários presentes nos textos. Não basta uma leitura literal ou imediata. É preciso um esforço de descobrir aquilo que Deus quis comunicar através dos autores sagrados.

1 – O primeiro passo consiste em identificar o contexto em que cada livro foi escrito, conhecendo o ambiente histórico, social e religioso do povo de Israel ou das primeiras comunidades cristãs.

2 – É importante reconhecer os diferentes géneros literários  presentes na Escritura, como narrativas históricas, poesia, profecia, parábolas, cartas ou textos sapienciais, pois cada género transmite a verdade de modo próprio.

3 – Só se lê bem a Bíblia numa atitude de fé. A Sagrada Escritura é Deus que Se comunica, que oferece a sua luz. Só a entendemos bem, se nos colocamos numa atitude acolhedora, de confiança e abertura diante desse Deus que Se revela e Se oferece.

4 – A Escritura deve ser lida “no mesmo Espírito em que foi escrita”. Isso significa interpretá-la à luz da unidade de toda a Bíblia, da Tradição viva da Igreja e do ensinamento do Magistério. Nenhum texto deve ser isolado do conjunto da Revelação.

Ler a Bíblia é entrar em diálogo com Deus, acolhendo uma mensagem que continua viva e atual para orientar a vida pessoal, comunitária e espiritual dos crentes.

O que nos diz a Verbum Domini

A autêntica hermenêutica (interpretação) da Bíblia só pode ser feita na fé eclesial, que tem o seu paradigma no sim de Maria.


Na vida da Igreja, a Bíblia ocupa um lugar central e insubstituível. Desde os primeiros tempos do cristianismo, os textos sagrados alimentam a fé, iluminam a missão evangelizadora e orientam a caminhada espiritual do povo de Deus.

A Igreja recebe a Escritura como um dom de Deus e como fonte permanente de verdade e salvação. Jesus, o Filho de Deus é a Palavra que Deus nos enviou. Ele está presente na Palavra quando a lemos, meditamos e rezamos hoje. O mesmo Espírito que inspirou os autores sagrados continua presente nesta sua Igreja para nos ajudar a ler com fé a Palavra.

1 – Na liturgia, especialmente na celebração da Eucaristia, a proclamação das leituras bíblicas constitui um momento essencial, através do qual Deus continua a falar ao seu povo. A mesa da Palavra prepara os fiéis para a mesa da Eucaristia.

2 – A Sagrada Escritura também sustenta a catequese, a pregação, a formação teológica e o discernimento pastoral. Os santos, teólogos e pastores, ao longo da história, encontraram nela inspiração para compreender e viver mais profundamente a mensagem de Jesus.

3 – Além disso, a leitura orante da Bíblia, especialmente através da Lectio Divina, ajuda os crentes a cultivar uma relação pessoal com Deus.

A Sagrada Escritura não pertence apenas ao passado, mas permanece viva no presente da Igreja, guiando a sua fé, a sua oração e a sua missão no mundo.

O que nos diz a Verbum Domini

A Igreja não vive de si mesma, mas do Evangelho; e do Evangelho tira, sem cessar, orientação para o seu caminho. Temos aqui uma advertência que cada cristão deve acolher e aplicar a si mesmo: só quem se coloca primeiro à escuta da Palavra é que pode depois tornar-se seu anunciado.


Ao longo da história, a humanidade usou diferentes géneros para narrar acontecimentos, transmitir leis, expressar sentimentos, ensinar sabedoria ou comunicar experiências religiosas. Um género literário é uma forma particular de comunicar uma mensagem através da linguagem, possuindo características próprias de estrutura, estilo, vocabulário e intenção.

Identificar o género literário de um texto é essencial para compreender corretamente aquilo que o autor pretende dizer, evitando interpretações superficiais ou equivocadas. Não se lê um poema da mesma forma que uma carta, nem um relato simbólico da mesma maneira que um texto histórico.

A Bíblia, sendo uma coleção de livros escritos ao longo de mais de mil anos, em contextos históricos e culturais muito diversos, apresenta uma grande variedade de géneros literários. O conhecimento destes géneros é fundamental para interpretar corretamente a Palavra de Deus, pois o próprio Deus revelou-Se através de autores humanos, respeitando a sua cultura, linguagem e formas de expressão.

Entre os géneros mais presentes na Bíblia está o género narrativo, que relata acontecimentos fundamentais da história da salvação, como a criação, o êxodo do povo de Israel ou a vida de Jesus Cristo.

O género legislativo aparece sobretudo nos livros do Pentateuco, contendo leis, normas e orientações para a vida religiosa e social do povo escolhido.

O género poético encontra-se nos Salmos, cânticos e lamentações, utilizando imagens, paralelismos e símbolos para expressar oração, louvor ou sofrimento.

A Bíblia contém também textos proféticos, nos quais os profetas anunciam a vontade de Deus, denunciam injustiças e renovam a esperança.

Os livros sapienciais refletem sobre o sentido da vida, da justiça e da relação com Deus.

No Novo Testamento destacam-se ainda as parábolas de Jesus, as cartas apostólicas e a literatura apocalíptica, mostrando a riqueza e profundidade da revelação bíblica.

O que nos diz o Catecismo da Igreja Católica

Para descobrir a intenção dos autores sagrados, é preciso ter em conta as condições do seu tempo e da sua cultura, os «géneros literários» em uso na respetiva época, os modos de sentir, falar e narrar correntes naquele tempo. «Porque a verdade é proposta e expressa de modos diversos, em textos históricos de vária índole, ou proféticos, ou poéticos ou de outros géneros de expressão».


O livro dos salmos é uma coleção de 150 orações. São uma das partes mais ricas e espiritualmente profundas da Bíblia. Estes textos poéticos nasceram da experiência religiosa do povo de Israel ao longo de vários séculos e exprimem, com grande intensidade, a relação entre o ser humano e Deus. A tradição bíblica atribui muitos destes salmos ao rei David, embora tenham sido compostos por diferentes autores e em épocas distintas.

Os salmos apresentam uma grande diversidade de temas e sentimentos humanos. Neles encontramos

» orações de louvor e agradecimento,

» súplicas em momentos de sofrimento,

» pedidos de perdão,

» expressões de confiança,

» cânticos de esperança e

» meditações sobre a justiça e a fidelidade de Deus.

Esta riqueza faz dos salmos uma verdadeira escola de oração, onde cada pessoa pode reconhecer as suas próprias alegrias, angústias, dúvidas e esperanças.

Na vida da Igreja Católica, os Salmos ocupam um lugar privilegiado, especialmente na liturgia, na celebração da Eucaristia e na Liturgia das Horas.

São também usados por muitos cristãos na sua oração pessoal. Por vezes, rezamos um salmo porque ele exprime o que estamos a sentir ou se adequa a um momento da nossa vida. Outras vezes, rezamos salmos que nos abrem a novas possibilidades de fé. São palavras escritas há muito tempo que, no hoje, nos colocam em diálogo com Deus. Sentimo-nos unidos a tantas gerações de crentes que rezaram com elas. Sentimo-nos unidos ao próprio Jesus que os rezou também.

O que nos diz a Verbum Domini

No Livro dos Salmos Deus nos fornece as palavras com que podemos dirigir-nos a Ele, levar a nossa vida para o colóquio com Ele, transformando assim a própria vida num movimento para Deus. De facto, nos Salmos, encontramos articulada toda a gama de sentimentos que o homem pode ter na sua própria existência e que são sapientemente colocados diante de Deus; alegria e sofrimento, angústia e esperança, medo e perplexidade encontram lá a sua expressão.

Toda a Palavra de Deus é inspirada. Mas os evangelhos são os livros mais conhecidos.

A sua formação foi um processo gradual, profundamente ligado à experiência das primeiras comunidades cristãs e à necessidade de preservar a memória de Jesus para as gerações futuras.

1 – Num primeiro momento, após a morte e ressurreição de Jesus, os seus discípulos anunciaram oralmente aquilo que tinham visto e escutado. Esta transmissão oral, conhecida como tradição apostólica, aconteceu em diferentes regiões do mundo mediterrânico, onde a mensagem cristã se espalhou. Os apóstolos, missionários e líderes das comunidades repetiam palavras, parábolas, milagres e acontecimentos da vida de Jesus, adaptando a sua linguagem às necessidades concretas de cada comunidade.

2 – Com o passar dos anos, sobretudo quando começaram a desaparecer as testemunhas diretas, surgiu a necessidade de colocar por escrito essas tradições. Possivelmente, os cristãos usavam pequenas “fichas” contendo relatos de episódios da vida de Jesus ou frases que Ele dissera. Estas pequenas frases tinham três usos principais:

2a –Pregação missionária: Aos judeus e aos pagãos, os primeiros cristãos recordavam a ressurreição de Jesus e as coisas que Jesus fez e disse durante a sua vida pública. Diziam que Jesus veio cumprir plenamente o que fora prometido no Antigo Testamento. Ele é o Messias.

2b Catequese: Aqueles que aderiam ao grupo dos cristãos procuravam orientações para a sua vida concreta a partir do que Jesus tinha dito e feito.

2c Liturgia: Os cristãos reuniam-se para rezar e para recordar a Última Ceia de Jesus. Havia muito cuidado em preservar a memória dos últimos momentos de Jesus

3 – A pouco e pouco, essas fichas foram reunidas em coleções de relatos ou de discursos. Uma das primeiras sequências deve ter sido a narração da paixão de Jesus. Aparecem coleções de parábolas, de milagres, de discursos.

4 – A um certo momento, estas fichas e coleções foram reunidas num “livro”, num relato com princípio, meio e fim, a que se deu o nome de Evangelho. O primeiro a aparecer foi escrito por Marcos, por volta do ano 70, em Roma, para uma comunidade de cristãos provenientes do paganismo. Anos mais tarde, entre os anos 80 e 90, Mateus e Lucas usam o evangelho de Marcos como base para os seus evangelhos. Enriquecem-nos com outras coleções de relatos e com mais discursos. Mateus escreve para cristãos vindos do judaísmo e Lucas para cristãos de origem grega e pagãos. Ainda mais tarde, pelo ano 100, João redige uma meditação profunda sobre Jesus.

Os evangelhos não pretendem ser biografias, como as que temos hoje. São testemunhos de fé e um convite a acreditar em Jesus e na sua mensagem. Cada evangelista organizou os acontecimentos segundo objetivos pastorais e teológicos próprios, respondendo às perguntas e desafios das comunidades para quem escrevia.

O que nos diz o Catecismo da Igreja Católica

Os evangelhos são o coração de todas as Escrituras, «enquanto são o principal testemunho da vida e da doutrina do Verbo encarnado, nosso Salvador».


O evangelho mais antigo (+- 70 d.C.) é o de Marcos. Normalmente aparece nas nossas bíblias em segundo lugar. Tradições antigas, já do século II, dizem que foi escrito por Marcos, um jovem cristão de Jerusalém, primo de Barnabé que acompanhou Paulo na sua primeira viagem missionária. Tornou-se mais tarde companheiro de Pedro e o texto seria um eco da pregação de Pedro em Roma.

É lido no ano litúrgico B. É um texto curto (16 capítulos), escrito num grego popular, com uma linguagem concreta e viva. Acompanha a vida de Jesus, desde o seu Batismo até à ressurreição. Logo no título diz qual é o objetivo do autor: anunciar a Boa Notícia (= Evangelho) de Jesus Cristo, Filho de Deus.

Dirige-se mais aos pagãos do que aos judeus. Cita pouco o Antigo Testamento e tem de explicar os costumes judaicos e traduzir as expressões aramaicas. Tenta dar o equivalente em latim de certas palavras gregas ou aramaicas. Dá um lugar importante ao apóstolo Pedro: a sua vocação (1, 16), a cura da sua sogra (1, 30), o seu papel liderante no grupo dos Doze (3, 16), a profissão de fé em Cesareia (8, 27).

Este evangelho propõe algumas ideias claras:

1 – Jesus é um homem enérgico, entusiasmado, profeta e taumaturgo (faz milagres).

2 – Jesus tem um segredo, que se vai revelando pouco a pouco. Ele aceita ser tratado como profeta, como “filho de David”. Várias vezes chama-se a si mesmo “filho do homem”, uma figura misteriosa anunciada pelo profeta Daniel (Dn 7, 13). Mas manda calar aqueles que O chamam Messias, Cristo. Aparece muitas vezes como “filho de Deus”: no próprio título do livro, no batismo, na transfiguração e, finalmente, na boca do centurião romano, junto à cruz. Verdadeiramente, “este homem é o filho de Deus” (Mc 15, 39).

Sabias que…

O símbolo de Marcos é o Leão, imagem de força, coragem e autoridade. A tradição associa-o ao início do seu Evangelho, onde ecoa a voz poderosa de João Batista no deserto, semelhante ao rugido de um leão. Marcos apresenta Jesus como o Messias forte, capaz de vencer o mal, curar os doentes e manifestar poder sobre todas as coisas. O leão recorda também a realeza de Cristo, descendente da tribo de Judá. Este símbolo convida os cristãos a viver a fé com coragem, firmeza e confiança no poder transformador do Evangelho.


Nas nossas bíblias, o evangelho de Mateus é o primeiro a aparecer. Este Mateus parecer ser o cobrador de impostos que Jesus um dia chamou para O seguir e a quem Marcos e Lucas chamam Leví.

Foi composto, possivelmente, entre os anos 80 e 90. Costumamos lê-lo no ano litúrgico A. Os textos do Pai-nosso e das bem-aventuranças que usamos habitualmente são retirados daqui. É o evangelho mais longo, com 28 capítulos.

Reflete um ambiente e uma cultura semita. Há numerosas expressões típicas, costumes judaicos mencionados sem explicação, fortes sinais de polémica entre cristãos e judeus.

Mateus inclui alguns relatos da infância de Jesus e depois narra a sua vida desde o batismo até à ressurreição, distinguindo dois períodos:

1 – A vida na Galileia, onde Jesus Se apresenta em palavra e obras e é rejeitado;

2 – A subida para Jerusalém e a paixão, descrita em pormenor.

Mateus é original por agrupar as palavras de Jesus em cinco conjuntos de discursos:

+ O discurso da montanha (Mt 5 – 7)

+ A missão dos discípulos (Mt 10)

+ As parábolas do Reino (Mt 13)

+ Os conselhos comunitários (Mt 18)

+ A manifestação final do Filho do homem (Mt 24 – 25)

Os sublinhados deste autor mostram como Mateus estava impregnado pela cultura judaica.

1 – O Reino de Deus, anunciado pelos profetas e inaugurado por Jesus. É proclamado no sermão da montanha, revelado nas parábolas, confirmado pelos milagres. A comunidade dos discípulos deve viver o Reino, enquanto aguarda pela sua realização perfeita, quando vier o filho do Homem.

2 – Toda a vida de Jesus é a realização das escrituras. Cristo é o novo David e o novo Moisés. Ele é o Messias desejado, que realiza a nova Aliança no seu sangue.

3 – Na sua paixão e pela sua ressurreição, Jesus revela-Se como filho de Deus. Ele é Cristo, o filho de Deus vivo, como Pedro tinha professado (16, 16).

O evangelho de Mateus é menos elegante e sensível que o de Lucas, é menos vivo e colorido que o de Marcos, mas foi sempre muito utilizado pelas igrejas, talvez por causa da importância dada à comunidade, e porque nos traz tantas palavras de Jesus conservadas com veneração pela primeira comunidade cristã.

Sabias que…

O símbolo de São Mateus é o Homem, por vezes representado como um anjo. Esta imagem está ligada ao início do seu Evangelho, que apresenta a genealogia de Jesus, destacando a sua origem humana e a sua inserção na história do povo de Israel. O símbolo recorda o mistério da Encarnação: Deus fez-Se homem para habitar entre nós. A figura humana representa também a proximidade de Cristo com toda a humanidade. Quando aparece com asas, lembra a inspiração divina da mensagem anunciada. Mateus convida-nos a descobrir Jesus como verdadeiro homem e verdadeiro Deus.


A tradição atribui o terceiro evangelho e o livro dos Atos dos Apóstolos a um cristão da comunidade de Antioquia, de origem pagã. Lucas foi companheiro de Paulo que lhe chama “o nosso querido médico” (Col 4, 14).

O evangelho que tem Lucas por autor reflete a tradição catequética de Antioquia.  Parece ter sido escrito por um homem de cultura grega refinada, perito em medicina, para os cristãos de origem pagã.

Lucas assume que quer escrever uma exposição organizada da história de Jesus: “resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem…” (Lc 1, 3).

Este evangelho acompanha-nos no ano litúrgico C e contém 24 capítulos. Mais do que uma história rigorosa, o seu evangelho é um testemunho de fé em Cristo, que começa na Galileia e vai subindo em direção a Jerusalém, onde acontecerá a sua Páscoa.

Lucas foi especialmente sensível a alguns traços da personalidade de Jesus:

1 – Jesus é o Salvador misericordioso. Ele está atento a todos os desprezados: crianças, mulheres, estrangeiros, samaritanos. A todos Jesus oferece o perdão: a pecadora em casa do fariseu (7, 36-50), a Zaqueu o publicano (19, 1-10), aos seus torturadores (23, 34), ao bom ladrão (23, 43)… Lucas, que é o único a mencionar estes episódios, é também o único a contar a parábola do filho pródigo (15, 11-32).

2 – Jesus exige o desprendimento total. O seguimento de Jesus é uma escolha radical e total. Exige desapego, disponibilidade e confiança absoluta. Quem O segue coloca o Reino acima dos próprios interesses, da segurança e até dos laços familiares, assumindo diariamente a cruz com coragem, liberdade interior e fidelidade. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e siga-me.” (9, 23) “Assim, qualquer de vós que não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo.” (14, 33)

3 – Mas este é também o evangelho da alegria. Esta está presente em todas as páginas: todos os que seguem Jesus cantam as maravilhas de Deus, a começar por Maria no seu magnificat (1, 46-55).

Sabias que…

O símbolo de Lucas é o Touro, animal ligado ao sacrifício e ao serviço no templo de Jerusalém. O seu Evangelho começa precisamente com Zacarias no contexto do culto, o que explica esta associação. O touro representa força, perseverança e entrega generosa. Lucas apresenta Jesus como aquele que veio servir, curar, acolher os pobres e oferecer a vida pela humanidade. Também destaca a misericórdia de Deus através de parábolas cheias de compaixão. Este símbolo recorda que a verdadeira grandeza está no serviço humilde, na dedicação aos outros e no amor vivido com fidelidade.


O evangelho de João foi concluído antes do fim do século primeiro, provavelmente na região da Ásia menor virgula perto de Éfeso. É atribuído a João, o evangelista, que poderia ser o irmão de Tiago, um dos primeiros seguidores de Jesus.

É um texto muito diferente dos três anteriores. Tal como os três evangelhos sinópticos, acompanha a vida de Jesus, desde o batismo dado por João Batista até à sua ressurreição e dá testemunho da fé da igreja. Mas o plano, o vocabulário e os temas fazem dele uma meditação sobre o mistério de Jesus, mais do que uma biografia.

Na liturgia, lemos algumas passagens nos tempos fortes: Natal, Quaresma, Páscoa. Tem 21 capítulos.

Começa com um prólogo solene onde se afirma uma verdade essencial: Deus fez-Se homem. O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.

Depois do testemunho de João Batista e do chamamento dos primeiros discípulos, o autor escolhe, de entre os milagres e encontros de Jesus, os sinais mais simbólicos:

+ bodas de Canaã (2, 1-12),

+ encontro com Nicodemos (3, 1-21),

+ com a samaritana (4, 1-42),

+ a cura do paralítico (5, 1-18),

+ a multiplicação dos pães 6, 1-69),

+ cura do cego de nascença (9, 1-41),

+ ressurreição de Lázaro (11, 1-44).

Estes sinais são complementados com discursos de Jesus sobre o pão da vida, sobre o bom pastor etc.

Uma segunda parte narra longamente a Páscoa de Jesus (capítulos 13 a 21; um terço da totalidade). Começamos com a ceia da Quinta-Feira Santa, seguida de um longo discurso, uma espécie de testamento espiritual de Jesus, antes de relatar a paixão, morte e ressurreição do Senhor.

Toda a vida de Jesus é apresentada como um combate espiritual: a luz contra as trevas, a fé contra a incredulidade, a vida contra a morte.

Sabias que…

O símbolo de João é a Águia, sinal de elevação, contemplação e visão profunda. A águia voa alto e fixa o olhar na luz, tal como João conduz o leitor ao mistério divino de Cristo. O seu Evangelho começa com palavras que apontam para a eternidade: “No princípio era o Verbo”. João revela Jesus como Filho de Deus, luz do mundo e fonte da vida. O símbolo da águia convida a olhar para além do visível, procurando a verdade mais profunda. Recorda que a fé também se alimenta da contemplação e da intimidade com Deus.

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