Texto de introdução
1. DEUS REVELA-SE
Deus gosta de Se comunicar.
Ele revela-Se à humanidade de muitas formas ao longo da história. A natureza manifesta a grandeza, a beleza e a sabedoria de Deus Criador. O céu, o mar, as montanhas e todos os seres vivos testemunham a presença de Deus e convidam-nos a reconhecer o seu amor.
Deus comunica-Se também ao coração de cada pessoa, através da consciência humana, inspirando o bem, a justiça e a verdade.
Outra forma importante de revelação acontece através da história do povo de Israel, onde Deus Se manifestou por meio dos profetas, sinais e acontecimentos marcantes.
No entanto, a maior revelação de Deus acontece em Jesus Cristo, que mostrou ao mundo o rosto misericordioso do Pai através das suas palavras, gestos e ensinamentos.
A Bíblia ocupa um lugar central nesta revelação. Ela reúne textos inspirados que testemunham a relação de Deus com a humanidade e transmite a sua mensagem de amor e salvação. Lemos a Bíblia com atenção e devoção porque nela Deus nos revela a sua ternura. Escutamos a sua Palavra para crescer na fé, na esperança e no amor. Nestes livros sagrados, Deus está realmente presente.
O que nos diz o Vaticano II
Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade, segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina. Em virtude desta revelação, Deus invisível na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos e convive com eles, para os convidar e admitir à comunhão com Ele.
(Concílio Vaticano II, Dei Verbum 2)
2. COMO SE FORMOU A BÍBLIA?
A Bíblia não surgiu de uma só vez, nem foi escrita por uma pessoa só. Ela formou-se através de um longo processo histórico, religioso e cultural que durou muitos séculos. Os textos mais antigos começaram a ser transmitidos oralmente no seio do povo de Israel, muito antes de serem postos por escrito. Estas tradições incluíam narrativas sobre a criação, os patriarcas, a libertação do Egipto, as alianças com Deus e a história do povo eleito.
Com o passar do tempo, especialmente entre os séculos X e II a.C., estas tradições foram recolhidas, organizadas e escritas, dando origem aos livros que hoje compõem o Antigo Testamento. Entre estes encontram-se textos históricos, legislativos, poéticos, sapienciais e proféticos. Muitos deles foram redigidos em hebraico, enquanto alguns trechos foram escritos em aramaico ou em grego. Mais tarde, vários desses textos foram traduzidos para grego na famosa tradução conhecida como Septuaginta, ou Bíblia dos 70.
O Novo Testamento começa a ser escrito poucos anos depois da morte e ressurreição de Jesus. Os primeiros escritos são as cartas de Paulo a algumas comunidades cristãs. Ao mesmo tempo iam-se compondo os evangelhos. Os escritos do Novo Testamento foram todos compostos em grego. A lista dos livros que fazem parte da Bíblia, isto é que os cristãos consideram inspirados, chama-se cânon. Ela foi elaborada de forma gradual.
O que nos diz o Catecismo da Igreja Católica
Foi a Tradição Apostólica que levou a Igreja a discernir quais os escritos que deviam ser contados na lista dos livros sagrados. Esta lista integral é chamada «Cânon» das Escrituras. Comporta, para o Antigo Testamento, 46 (45, se se contar Jeremias e as Lamentações como um só) escritos, e, para o Novo, 27.
(Catecismo da Igreja Católica, 120)
3. PALAVRA INSPIRADA
Os cristãos reconhecem que as palavras escritas nos livros da Bíblia são Palavra de Deus. Eles são inspirados por Deus. São palavras que vêm de Deus.
Deus, na sua infinita sabedoria e amor, quis comunicar-Se à humanidade e revelar o seu plano de salvação através de acontecimentos e palavras que foram progressivamente transmitidos e, posteriormente, colocados por escrito sob a ação do Espírito Santo. Por isso, a Escritura não é apenas uma coleção de textos religiosos ou documentos históricos, mas verdadeira Palavra de Deus confiada ao seu povo.
A inspiração da Sagrada Escritura é uma verdade central da fé. Reconhecemos que Deus é o autor último dos livros sagrados. Através da ação do Espírito Santo, Deus escolheu autores humanos, com a sua cultura, linguagem, personalidade e contexto histórico, para transmitirem fielmente aquilo que Ele desejava comunicar para a salvação da humanidade. Assim, a Escritura possui simultaneamente uma dimensão divina e humana: é Palavra de Deus expressa por palavras humanas.
O Concílio Vaticano II, especialmente na constituição Dei Verbum, ensina que os hagiógrafos (as pessoas que redigiram a Bíblia) escreveram inspirados pelo Espírito Santo, de modo que tudo aquilo que afirmam deve ser considerado afirmado pelo próprio Deus. Contudo, esta inspiração não elimina a liberdade nem a individualidade dos autores; antes, Deus serve-Se das suas capacidades e circunstâncias concretas.
A inspiração bíblica não significa um ditado mecânico, como se os autores fossem instrumentos passivos. Deus respeita plenamente a personalidade, inteligência, sensibilidade e experiência de cada autor, servindo-Se dessas realidades para transmitir a sua mensagem. A inspiração bíblica garante que a Escritura ensina com verdade aquilo que Deus quis revelar para a nossa salvação. Por isso, a Palavra de Deus continua viva, atual e eficaz na vida dos crentes e na missão da Igreja.
O que nos diz a Verbum Domini
Quando esmorece em nós a consciência da inspiração, corre-se o risco de ler a Escritura como objeto de curiosidade histórica e não como obra do Espírito Santo, na qual podemos ouvir a própria voz do Senhor e conhecer a sua presença na história.
(Bento XVI, Verbum Domini 19)