Num tempo em que muitos pais vivem entre a pressão de acertar sempre e o receio constante de falhar, surge Corações que Educam, um livro que se apresenta como um verdadeiro “livro-abrigo” para as famílias. A partir de histórias reais, vividas e sentidas na primeira pessoa, a autora cruza a sua experiência enquanto psicóloga, mãe e educadora salesiana para refletir sobre os desafios da parentalidade contemporânea. Nesta entrevista, fala da origem da obra, da importância de educar através da relação e da confiança, dos sete pilares que estruturam o livro e da convicção que atravessa todas as suas páginas: as crianças crescem melhor quando se sentem verdadeiramente amadas.
Como nasceu a ideia de escrever “Corações que Educam”?
A ideia de escrever este livro surgiu do Pe. Juan Freitas. Foi ele quem me desafiou a colocar em palavras aquilo que fui aprendendo ao longo dos anos como mãe, psicóloga e educadora salesiana.
Acolhi este desafio com entusiasmo, porque a escrita foi sempre o lugar onde melhor me consigo exprimir. O Pe. Juan acreditava que o trabalho que desenvolvo com tantas famílias no SolSal Lisboa poderia chegar a mais pessoas através de um livro e ajudar outros pais nas suas próprias caminhadas.
Ao longo do processo, foi acompanhando este caminho de forma muito discreta, perguntando de vez em quando como estava o livro e demonstrando confiança no resultado final. Hoje vejo nisso um autêntico exemplo de Dom Bosco. Por vezes, basta que alguém acredite em nós para encontrarmos a coragem de partilhar aquilo que trazemos no coração. E, para mim, este livro nasceu exatamente desse encontro entre a confiança de alguém e o desejo de cuidar de muitas famílias através das palavras.
Em que momento percebeste que estas histórias precisavam de ganhar forma de livro?
Quando comecei a pensar na estrutura do livro, tive desde logo a certeza de que cada tema deveria partir de uma história. Acredito que as histórias simples do dia a dia têm, muitas vezes, mais impacto do que muitos conceitos teóricos. Quando nos reconhecemos numa história, sentimo-nos compreendidos e isso tem um enorme poder.
A minha ideia inicial era criar histórias inspiradas nas experiências que fui vivendo e observando ao longo dos anos, mas logo no primeiro texto percebi que não era eu. Senti que precisava de partir de histórias reais, das experiências que vivi, das dúvidas que senti e das aprendizagens que fui fazendo ao longo do caminho.
Queria que quem lesse o livro encontrasse verdade e honestidade nas suas páginas. Por isso, cada capítulo parte de uma história real e nasce do desejo sincero de mostrar que todos aprendemos, erramos, crescemos e recomeçamos.
O que significa para ti a expressão “educar com o coração”?
Para mim, educar com o coração é amar.
É acreditar que aquilo que mais educa uma criança não são as técnicas nem as estratégias, mas a relação que construímos com ela todos os dias.
Inspirada por Dom Bosco, acredito profundamente que a educação é uma questão do coração. É uma questão de presença, de escuta, de confiança e da capacidade de acompanhar os nossos filhos enquanto crescem.
Isso não significa educar sem limites ou sem exigência. Significa que os limites, a correção e a orientação fazem mais sentido quando nascem de uma relação onde a criança se sente amada e segura.
Aquilo que mais desejo para as crianças é que cresçam sabendo que serão sempre amadas, mesmo nos dias em que erram, falham ou desafiam quem as educa.
Inspirada por Dom Bosco, acredito profundamente que a educação é uma questão do coração.
Porque escolheste organizar o livro em torno da palavra C.O.R.A.Ç.Ã.O.?
Foi a minha primeira certeza e surgiu imediatamente quando pensei em como organizar o livro. Coração é, provavelmente, a palavra que mais utilizo naquilo que escrevo, nas conversas com a minha filha, nos encontros de pais que dinamizo, nas sessões com crianças e jovens e até nos materiais que crio para trabalhar determinados temas.
Por isso, foi uma escolha muito natural para mim. Aliás, houve quem brincasse comigo e dissesse que bastava olhar para o título e para o índice para perceber que o livro era meu. E confesso que têm alguma razão. A palavra coração aparece tantas vezes naquilo que faço que seria quase estranho escrever um livro sobre educação sem lhe dar um lugar de destaque.
Os sete pilares surgiram depois: Cuidar, Ouvir, Recomeçar, Acreditar, Crescer, Acolher e Orientar. Mas o coração veio primeiro e, na verdade, continua a vir primeiro.
Qual destes sete pilares consideras ser desafiante para os pais de hoje?
Se tivesse de escolher um, diria Recomeçar.
Ao acompanhar tantas famílias, tenho a sensação de que os pais de hoje vivem sob uma enorme pressão. Existe muita informação, muitas opiniões e uma ideia, muitas vezes irrealista, de que devemos acertar sempre.
Confesso que também sinto essa pressão. Enquanto mãe e, talvez ainda mais, enquanto psicóloga. Há momentos em que sentimos que, por conhecermos a teoria, deveríamos conseguir fazer tudo bem… Mas a parentalidade tem uma forma muito bonita de nos lembrar que continuamos a ser humanos.
Por isso, acredito que a capacidade de recomeçar é um dos maiores desafios da parentalidade atual. Aceitar que vamos errar, que nem sempre vamos responder da melhor forma e que isso não nos torna maus pais.
Aquilo que faz a diferença não é nunca falhar. É ter a humildade de reconhecer o erro, melhorar quando necessário e voltar a tentar no dia seguinte. E, curiosamente, também é assim que ensinamos os nossos filhos. Quando pedem desculpa, assumem uma falha e recomeçam, aprendem que ser humano não é ser perfeito. É ter a coragem de crescer.
Que dificuldades encontras com maior frequência nas famílias que acompanhas?
As dificuldades são muito variadas. Há famílias preocupadas com as birras, com os limites, com os ecrãs, com a gestão das emoções, com os desafios da adolescência ou com a dificuldade de conciliar o trabalho com o tempo em família.
Mas, se olhar para aquilo que encontro com mais frequência, diria que são pais e mães muito cansados. Pais e mães que amam profundamente os seus filhos e que querem fazer o melhor por eles, mas que vivem com a sensação de que nunca é suficiente.
Vejo muita exaustão, muitas dúvidas e muito medo de falhar. E confesso que, depois de me tornar mãe, passei também a compreender estas dificuldades de uma forma diferente.
Aquilo que as famílias mais procuram nem sempre são respostas perfeitas. Procuram sentir-se compreendidas, acolhidas e acompanhadas. Procuram alguém que lhes diga: “Está a ser difícil, eu sei, mas não está sozinho.“
Vivemos uma época de excesso de exigência sobre os pais?
Acredito que sim.
Nunca tivemos tanto acesso a informação sobre parentalidade e, ao mesmo tempo, nunca vi tantos pais com medo de errar. Há livros, especialistas, redes sociais e opiniões para tudo. Muitas vezes, em vez de nos dar tranquilidade, tudo isso acaba por aumentar a sensação de que estamos constantemente a ser avaliados.
Confesso que também já senti essa pressão. Enquanto mãe e, talvez ainda mais, enquanto psicóloga. Houve momentos em que achei que deveria saber sempre o que fazer ou que os outros esperavam que eu assim fosse enquanto mãe. A maternidade ensinou-me rapidamente que conhecer a teoria não nos livra das dúvidas, do cansaço, dos erros ou da culpa.
É por isso que quis que este livro fosse um livro-abrigo. Em vez de partir de fórmulas perfeitas, parte da (im)perfeição. De histórias reais, de dúvidas reais, de erros, de recomeços e de aprendizagens que fazem parte da vida de qualquer família.
Acredito que os pais precisam de sentir que não estão sozinhos. Precisam de perceber que assumir as próprias imperfeições não significa resignar-se a elas. Significa reconhecê-las para poder crescer. Gosto muito da imagem do Kintsugi, a arte japonesa que repara a cerâmica partida com ouro. As marcas não são escondidas. Tornam-se parte da história. Creio que acontece o mesmo connosco. Não são as nossas falhas que nos definem, mas aquilo que fazemos com elas.
(Os pais) Precisam de perceber que assumir as próprias imperfeições não significa resignar-se a elas.
Porque sente que tantas famílias vivem com culpa permanente?
Penso que a culpa existe porque os pais amam muito os seus filhos.
Quanto mais importante é alguém para nós, maior é o receio de falhar. O problema surge quando esse amor se junta a uma enorme exigência e à ideia de que devemos acertar sempre.
Vivemos numa época em que estamos constantemente expostos a imagens de famílias felizes, organizadas e aparentemente capazes de dar resposta a tudo. Embora saibamos racionalmente que vemos apenas uma pequena parte da realidade, é fácil cair na comparação e sentir que os outros estão a fazer melhor do que nós.
Muitos pais vivem a olhar para aquilo que não fizeram, para aquilo que podiam ter feito melhor ou para aquilo que acreditam que deviam ser. E acabam por esquecer tudo aquilo que já fazem todos os dias pelos seus filhos.
Confesso que também me acontece. Há dias em que me deito a pensar naquilo que podia ter feito melhor enquanto mãe.
Por isso, acredito que precisamos de aliviar um pouco este peso. Precisamos de olhar menos para aquilo que nos faltou fazer e mais para o amor que oferecemos todos os dias, muitas vezes através de pequenos gestos que passam despercebidos. Afinal, é este amor consistente e imperfeito que os filhos guardam no coração.
O livro parte de histórias pessoais. O que trouxe a maternidade à tua visão enquanto psicóloga?
Transformou-me completamente.
Enquanto psicóloga, acompanhava diariamente as dúvidas, os medos, as culpas e os desafios das famílias. Conhecia a teoria, compreendia os processos e procurava ajudar da melhor forma possível.
A maternidade trouxe-me uma compreensão diferente. Aquelas preocupações deixaram de ser apenas algo que eu escutava nos outros e passaram a ser também as minhas.
Passei a perceber de forma muito mais profunda a exaustão, a culpa, a vulnerabilidade e até a beleza que existem na parentalidade. Sobretudo, percebi que educar é muito mais do que aplicar conhecimentos ou estratégias. É uma experiência profundamente humana, feita de amor, dúvidas, erros, recomeços e crescimento.
Tenho a certeza de a maternidade não me tornou uma melhor psicóloga porque me deu mais respostas. Tornou-me uma melhor psicóloga porque me ensinou a fazer perguntas diferentes e a olhar para as famílias com ainda mais proximidade, humildade e compreensão.
O episódio do “frasco das emoções dos pais” nasceu de uma experiência pessoal. Foi difícil partilhá-la?
Escutando esta pergunta, reconheço agora que foi difícil.
Não tanto pela partilha em si, mas porque continua a ser uma história que me emociona.
Como mãe, gostaria de ter reagido de outra forma. Como psicóloga, consigo compreender o que aconteceu. Naquele momento, o meu “frasco emocional” estava demasiado cheio e acabou por transbordar.
Ao revisitar esta história, percebo também que existia em mim uma necessidade muito grande de corrigir o comportamento da minha filha naquele instante. De mostrar que estava atenta, que estava a educar e que estava a responder da forma certa. Hoje reconheço que, por vezes, a preocupação em corrigir rapidamente um comportamento pode fazer-nos perder de vista aquilo que a criança mais precisa naquele momento.
Por isso, senti que era importante contar esta história. Muitas vezes, os pais carregam uma enorme culpa pelos momentos em que não conseguem ser a versão de si próprios que gostariam de ser. Eu também a senti.
Olho para esta experiência como um lembrete de algo muito importante: os filhos não aprendem apenas com aquilo que lhes ensinamos. Aprendem também com aquilo que transborda de nós. E, por isso, cuidar de nós próprios é também uma forma de cuidar deles.
O que aprendeste sobre ti própria ao escrever este livro?
Muitas das histórias que estão neste livro aconteceram há algum tempo e, curiosamente, em várias delas nunca tinha feito uma reflexão tão profunda sobre aquilo que tinha vivido, sentido ou aprendido.
Vivemos muitas vezes a correr, a responder ao que cada dia nos pede. Escrever obrigou-me a parar e a olhar para esses momentos com mais atenção. E, nesse processo, fui percebendo algumas coisas sobre mim, sobre a forma como vivo a maternidade e até sobre a exigência que, por vezes, coloco em mim própria.
Penso que aprendi a olhar para os meus erros com um pouco mais de serenidade e para os recomeços com mais esperança. Afinal, muitas das aprendizagens que procuro transmitir aos pais eram também aprendizagens de que eu própria precisava.
Por que decidiste dedicar este livro à tua avó?
Dediquei este livro à minha avó porque, sem saber ler nem escrever, me ensinou algumas das lições mais importantes que hoje partilho nas suas páginas.
Tivemos sempre uma ligação muito especial. Aprendi com ela muito mais do que alguma vez conseguirei explicar por palavras. Muitas das coisas em que acredito enquanto mãe, psicóloga e educadora têm raízes na experiência de ter sido amada por ela.
Por isso, esta dedicatória é, para mim, muito mais do que uma dedicatória. É uma forma de lhe dizer que muitas das coisas que escrevi neste livro começaram nela. Foi ela quem me mostrou, com o seu bonito exemplo, que a educação é verdadeiramente uma questão do coração.
Acredito que há pessoas que nos deixam muito mais do que memórias. Deixam-nos uma forma de amar. E a minha avó é, para mim, uma dessas pessoas.
Como podemos distinguir disciplina de autoritarismo?
Esta pergunta fez-me sorrir, porque, nos meus primeiros anos enquanto psicóloga junto dos pais, fazia esta distinção recorrendo a definições muito claras sobre disciplina e autoritarismo. Hoje, dou por mim a partir de perguntas que levem à reflexão sobre as questões que esta distinção levanta.
Quando um pai ou uma mãe intervém, está a perguntar-se: “Como posso ajudar o meu filho a aprender e a crescer?” ou “Como faço para que ele me obedeça neste momento?”
Para mim, a diferença começa muitas vezes aí.
A disciplina procura ensinar. O autoritarismo procura controlar. A disciplina ajuda a criança a compreender o impacto dos seus comportamentos e a desenvolver competências para fazer melhor. O autoritarismo centra-se, sobretudo, na obediência e no cumprimento da regra.
Isso não significa ausência de limites. Pelo contrário. As crianças precisam de limites. A questão é a forma como esses limites são vividos. Quando existe relação, respeito e intenção de ensinar, estamos mais próximos da disciplina. Quando o medo se torna a principal ferramenta, aproximamo-nos do autoritarismo.
Porque é tão importante a reparação depois do conflito?
Porque os conflitos fazem parte de todas as relações.
Às vezes discutimos, perdemos a paciência, dizemos algo de forma menos feliz ou reagimos de uma maneira que não corresponde àquilo que gostaríamos. Isso acontece entre adultos e acontece também na relação com os filhos.
O que verdadeiramente faz a diferença não é a ausência de conflito. É aquilo que fazemos depois dele.
Quando um pai ou uma mãe reconhece um erro, pede desculpa, explica o que aconteceu e procura reconstruir a ligação, está a transmitir uma mensagem muito importante à criança: as relações não precisam de ser perfeitas para serem seguras.
A reparação ensina que é possível errar sem deixar de amar e de cuidar e que os momentos difíceis podem transformar-se em oportunidades de crescimento.
O que nos diz hoje a psicologia sobre aquilo que verdadeiramente marca uma infância?
Hoje a psicologia diz-nos algo muito importante: aquilo que mais marca uma infância não são os momentos isolados, mas a qualidade das relações que a criança vive ao longo do tempo.
Sabemos que as crianças crescem melhor quando se sentem amadas, seguras e protegidas e quando contam com adultos emocionalmente disponíveis, capazes de as escutar, acolher e acompanhar. É através destas relações que constroem a autoestima, a confiança nos outros e a forma como olham para si próprias e para o mundo.
A investigação mostra-nos também que o que faz a diferença é a existência de relações suficientemente seguras, consistentes e reparadoras. De outra forma, uma das mensagens mais importantes que a psicologia nos deixa hoje é que uma infância segura se constrói a partir de experiências repetidas de cuidado, amor e ligação.
Por isso, quando me fazem esta pergunta, costumo responder que aquilo que verdadeiramente marca uma infância é a experiência de se sentir amado. É a partir desta experiência que a criança constrói muitas das bases que a acompanharão ao longo da vida.
O que dirias a um pai ou mãe que sente que está constantemente a falhar?
Diria, antes de mais, que fosse mais gentil consigo próprio.
Muitas vezes somos muito mais compreensivos com os outros do que connosco. Olhamos para os nossos erros com uma dureza que nunca usaríamos com alguém de quem gostamos.
Diria também que olhasse para o amor que oferece todos os dias aos seus filhos. Para os pequenos gestos de cuidado, para as preocupações, para a presença, para tudo aquilo que faz e que, tantas vezes, passa despercebido aos seus próprios olhos.
Lembraria ainda que não está sozinho. Muitos pais vivem as mesmas dúvidas, os mesmos medos e as mesmas preocupações. Partilhar essas inquietações com outras pessoas, pedir ajuda e procurar apoio não é um sinal de fraqueza. É um gesto de cuidado.
E, talvez acima de tudo, diria que o facto de se preocupar tanto em estar a falhar diz muito sobre o quanto ama os seus filhos.
Que ideia gostarias que cada leitor levasse consigo depois de fechar o livro?
Gostaria que cada leitor fechasse o livro com mais esperança.
Escrevi este livro para ser um livro-abrigo. Não para acrescentar exigências, culpas ou a sensação de que há mais coisas para fazer e para acertar. Quis que fosse um lugar onde os pais se sentissem compreendidos, acolhidos e acompanhados.
Por isso, gostaria que os leitores levassem consigo a essência dos sete pilares que atravessam o livro: Cuidar, Ouvir, Recomeçar, Acreditar, Crescer, Acolher e Orientar.
No meio de tantas teorias, opiniões e pressões, talvez seja importante recordar que muitas das coisas que verdadeiramente marcam uma criança cabem nestas sete palavras. E, sobretudo, que todas elas nascem do mesmo lugar: o coração.
Há uma ideia muito presente na tradição salesiana que gostaria de destacar: cada criança precisa de sentir que é amada. Acredito profundamente nisso. Quando uma criança se sente amada, abre-se ao crescimento e à vida.
Se, ao fechar o livro, um pai ou uma mãe sentir mais confiança no amor que oferece todos os dias aos seus filhos, então este livro terá cumprido o seu propósito.
Quando a tua filha for adulta e olhar para trás, qual gostarias que fosse a frase que dissesse sobre a infância que viveu contigo?
Curiosamente, esta foi também uma reflexão que surgiu enquanto escrevia o livro.
Se tivesse de escolher uma frase, não precisaria de ser algo extraordinário. Gostaria apenas que a minha filha pudesse um dia dizer: “Senti-me amada.”
Uma das histórias de que mais gosto no livro, Pedalar Juntos, e que mais me emocionou escrever, fala precisamente disso. Talvez por isso me tenha emocionado tanto revivê-la. Ao escrevê-la, ganhei ainda mais consciência de algo que a minha própria história e a psicologia me têm vindo a mostrar ao longo dos anos: aquilo que mais guardamos da infância não são os grandes acontecimentos, mas a forma como nos sentimos nas relações que vivemos. A sensação de termos sido acompanhados, amados, seguros e importantes para alguém.
Talvez seja isso que mais desejo para a minha filha. Não que se lembre de uma infância perfeita ou de momentos extraordinários, mas que, quando olhar para trás, reconheça que cresceu rodeada de amor. E que saiba que, mesmo nos dias em que falhei, duvidei ou não encontrei as palavras certas, houve uma coisa que nunca lhe faltou: o meu amor.
