Sonho e realidade 7: Sonho misterioso

Joãozinho completara nove anos. Uma noite — noite linda — sonhou...

Nas «Memórias» deixou escrito:
«Aos nove anos tive um sonho que me ficou profun¬damente gravado por toda a vida. Parecia-me estar perto de casa, num terreiro bastante espaçoso, onde uma multidão de rapazes se divertia. Uns riam, outros brincavam, não poucos rogavam pragas. Ao ouvir pragas, lancei-me para o meio deles, dando-lhes socos e falando-lhes para os fazer calar. Naquele momento, apareceu um Homem venerando, nobre¬mente vestido. Um manto cobria-lhe todo o corpo; mas o seu rosto era tão luminoso, que o não podia fitar. Chamou–me pelo nome e ordenou-me que me pusesse à testa daqueles rapazes, acrescentando estas palavras:
«Não com pancadas, mas com mansidão e caridade é que poderás conquistar estes teus amigos. Põe-te já a fazer-lhes uma prática sobre a fealdade do pecado e a beleza da virtude».
— Confuso e atemorizado, respondi que era um menino pobre e ignorante, incapaz de falar de religião àqueles jovens. No mesmo instante, os rapazes, deixando de bulhar uns com os outros, de gritar e praguejar, reuniram-se todos ao redor daquele que falava.
Quase sem saber o que dizia, perguntei: — Quem sois vós que me mandais coisas impossíveis?
—    Precisamente porque tais coisas te parecem impossí¬veis, deves torná-las possíveis pela obediência e pela aquisição da ciência.
—    Onde e com que meios poderei adquirir a ciência?
—    Dar-te-ei a Mestra, em cuja escola te podes tornar sábio, e sem a qual toda a sabedoria se torna loucura.
—    Mas, quem sois vós que falais assim?
—    Eu sou o Filho d’Aquela que tua mãe te ensinou a saudar três vezes por dia.
—    Minha mãe diz-me que não ande com aqueles que não conheço, sem sua licença; portanto, dizei-me o vosso nome.
—    O meu nome, pergunta-o à minha mãe. Naquele momento viu a seu lado uma Senhora de majestoso aspecto, vestida de um manto todo resplandecente, como se cada parte dele fosse uma fulgidíssima estrela. Vendo-me cada vez mais confuso nas minhas perguntas e respostas, fez-me sinal para que me aproximasse e, toman¬do-me com bondade pela mão, disse-me:
—    Olha!
Olhando, reparei que todos aqueles rapazes tinham fugido, e, em lugar deles, havia uma multidão de cabritos, cães, gatos, ursos e muitos outros animais.
—    Eis o teu campo, eis onde deves trabalhar — conti¬nuou a dizer aquela Senhora. Torna-te humilde, forte e robusto; e o que vês que neste momento sucede com estes animais, deverás tu fazê-lo com os meus filhos.
Voltei então os olhos, e eis que, em vez dos animais ferozes, apareceram outros tantos mansos cordeirinhos que, saltitando, corriam em redor, balindo, como para fazer festa àquele Homem e àquela Senhora.
Então, sempre a dormir, desatei a chorar, e pedi àquela Senhora que me falasse de maneira que eu compreendesse, porque não sabia o que aquela visão significava. Então Ela pôs-me a mão na cabeça, dizendo-me:
—    A seu tempo, tudo compreenderás.
Depois, um ruído acordou-me e tudo desapareceu. Eu fiquei desapontado. Parecia-me ter as mãos doridas pelos socos que tinha dado e a cara macerada pelas bofetadas recebidas. Aquele Personagem, aquela Senhora, as coisas ditas e ouvidas impressionaram de tal forma a minha mente, que naquela noite não fui capaz de tornar a pegar no sono.
De manhã, apressei-me a contar o sonho aos meus irmãos, que se puseram a rir, depois à minha mãe e à avó. Cada um dava a sua interpretação.
O irmão José dizia:
—    Virás a ser guardador de cabras, de ovelhas ou de outros animais.
Minha mãe:
—    Quem sabe se ainda chegarás a ser padre!
António, em tom seco:
—    Talvez venhas a ser chefe de bandidos.
Mas a avó, que não deixava de conhecer a teologia, apesar de ser de todo analfabeta, deu a sentença definitiva, dizendo:
—    Não devemos acreditar em sonhos.
Eu era do parecer de minha avó; todavia, nunca me foi possível apagar da memória aquele sonho».


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