O que precisas de ver?

Inspirados pela tradição da Igreja e pelo carácter quaresmal da sexta-feira, propomos que este dia seja vivido como um dia de conversão. Um dia especial de oração e silêncio para a escuta interior, a contemplação e a relação pessoal com Cristo.

Esta celebração pode ser realizada diante do Santíssimo Sacramento.

  • Lugar: Igreja (ou Capela ou outro espaço adequado).
  • Elementos celebrativos: cruz, Palavra de Deus e Santíssimo exposto.
  • Frase da semana: O que precisas de ver…e ainda evitas?
  • Mensagem evangélica: Jesus oferece luz, mas ver implica coragem e verdade.
  • Leitura Orante da Palavra: O cego de nascença (Jo 9,1‑41)

Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença.

Os seus discípulos perguntaram-lhe, então:

«Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?»

Jesus respondeu: «Nem pecou ele, nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. Temos de realizar as obras daquele que me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode atuar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.»

Dito isto, cuspiu no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama e disse-lhe:

«Vai, lava-te na piscina de Siloé» – que quer dizer Enviado.

Ele foi, lavou-se e regressou a ver.

Então, os vizinhos e os que costumavam vê-lo antes a mendigar perguntavam:

«Não é este o que estava por aí sentado a pedir esmola?»

Uns diziam: «É ele mesmo!»

Outros afirmavam: «De modo nenhum. É outro parecido com ele

Ele, porém, respondia: «Sou eu mesmo!»

Então, perguntaram-lhe: «Como foi que os teus olhos se abriram?»

Ele respondeu:

«Esse homem, que se chama Jesus, fez lama, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai à piscina de Siloé e lava-te.’

Então eu fui, lavei-me e comecei a ver!»

Perguntaram-lhe: «Onde está Ele?»

Respondeu: «Não sei.»

Levaram aos fariseus o que fora cego.

O dia em que Jesus tinha feito lama e lhe abrira os olhos era sábado.

Os fariseus perguntaram-lhe, de novo, como tinha começado a ver.

Ele respondeu-lhes: «Pôs-me lama nos olhos, lavei-me e fiquei a ver.»

Diziam então alguns dos fariseus:

«Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.» Outros, porém, replicavam: «Como pode um homem pecador realizar semelhantes sinais miraculosos?»

Havia, pois, divisão entre eles.

Perguntaram, então, novamente ao cego:

«E tu que dizes dele, por te ter aberto os olhos?»

Ele respondeu: «É um profeta!»

Ora os judeus não acreditaram que aquele homem tivesse sido cego e agora visse, até que chamaram os pais dele.

E perguntaram-lhes: «É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então como é que agora vê?»

Os pais responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como é que agora vê, nem quem foi que o pôs a ver. Perguntai-lhe a ele. Já tem idade para falar de si

Os pais responderam assim por terem receio dos judeus, pois estes já tinham combinado expulsar da sinagoga

quem confessasse que Jesus era o Messias. Por isso é que os pais disseram: ‘Já tem idade, perguntai-lhe a ele’.

Chamaram, então, novamente o que fora cego, e disseram-lhe: «Dá glória a Deus! Quanto a nós, o que sabemos é que esse homem é um pecador!»

Ele, porém, respondeu: «Se é um pecador, não sei. Só sei uma coisa: que eu era cego e agora vejo

Eles insistiram: «O que é que Ele te fez? Como é que te pôs a ver?»

Respondeu-lhes: «Eu já vo-lo disse, e não me destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo outra vez? Será que também quereis fazer-vos seus discípulos?»

Então, injuriaram-no, dizendo-lhe: «Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés!

Sabemos que Deus falou a Moisés; mas, quanto a esse, não sabemos donde é!»

Replicou-lhes o homem: 

«Ora isso é que é de espantar: que vós não saibais donde Ele é, e me tenha dado a vista! Sabemos que Deus não atende os pecadores, mas se alguém honrar a Deus e cumprir a sua vontade, Ele o atende. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha dado a vista a um cego de nascença. Se este não viesse de Deus, não teria podido fazer nada.»

Responderam-lhe: «Tu nasceste coberto de pecados e dás-nos lições?»

E puseram-no fora. Jesus ouviu dizer que o tinham expulsado e, quando o encontrou, disse-lhe:

«Tu crês no Filho do Homem?»

Ele respondeu: «E quem é, Senhor, para eu crer nele?»

Disse-lhe Jesus: «Já o viste. É aquele que está a falar contigo

Então, exclamou: «Eu creio, Senhor!» E prostrou-se diante dele.

Jesus declarou: «Eu vim a este mundo para proceder a um juízo: de modo que os que não veem vejam, e os que veem fiquem cegos

Alguns fariseus que estavam com Ele ouviram isto e perguntaram-lhe:

«Porventura nós também somos cegos?»

Jesus respondeu-lhes:

«Se fôsseis cegos, não estaríeis em pecado; mas, como dizeis que vedes, o vosso pecado permanece.»

Jesus encontra um homem cego de nascença. Diante da pergunta sobre a culpa, Jesus muda o foco: não se trata de procurar culpados, mas de deixar que as obras de Deus se manifestem.

A cura acontece de forma simples e desconcertante. O homem começa a ver, mas o verdadeiro processo é interior: à medida que é interrogado cresce na verdade e na liberdade.

No final, encontra-se novamente com Jesus e reconhece-O como Senhor.

Paradoxalmente, aqueles que pensavam ver, tornam-se cegos, porque recusam a verdade que os interpela e desafia.

Este Evangelho confronta-nos com uma pergunta exigente: ver ou continuar a fechar os olhos?

Todos temos zonas de cegueira:

  • medos que evitamos enfrentar;
  • feridas que não queremos tocar;
  • escolhas que sabemos precisar de mudança.

Jesus oferece luz, mas ver implica coragem:

coragem de deixar cair explicações fáceis e autoenganos,

coragem de assumir a verdade da própria história,

coragem de aceitar que a luz pode incomodar antes de libertar.

Como o cego curado, também nós somos chamados a um caminho:

do escuro à luz,

da dependência à liberdade,

do medo ao testemunho.

A pergunta ecoa diante do Santíssimo Sacramento:

O que precisas de ver… e que ainda evitas?

Senhor Jesus,

há coisas na minha vida que prefiro não ver,

porque ver obriga-me a mudar.

Toca os meus olhos e o meu coração.

Liberta-me das cegueiras que me mantêm preso

e concede-me o Teu Espírito de sabedoria e fortaleza.

Mesmo que a luz me desinstale,

quero aprender a confiar em Ti,

porque só Tu conduzes à verdadeira liberdade.

Em silêncio, contempla Jesus que Se aproxima do cego…

Depois, contempla Jesus presente no Santíssimo Sacramento.

Ele não força os olhos,

não impõe a Luz,

mas oferece-Se como luz do mundo.

Permanece nesta verdade simples:

ver não é apenas compreender,

é deixar-se transformar.

Escuta, no silêncio:

“Crês no Filho do Homem?”

Durante esta semana:

  • identifica uma situação em que precisas de olhar com mais verdade;
  • pede a graça de não fugir da luz;
  • dá um pequeno passo concreto de mudança ou reconciliação.

Quem se deixa iluminar por Cristo

pode perder seguranças,

mas ganha uma vida nova:

a vida dos filhos de Deus!

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