Vida familiar (3): Factor P

Nós, os cristãos, estamos acostumados a começar tudo “em nome do Pai”. É, na fé, o factor “P”.

Também na cultura e na educação de hoje existe um importante factor “P”, de pai. Depois de  um tempo definido pela “sociedade sem pai”, hoje todos os estudos de sociologia, psicologia e antropologia demonstram o peso do papel paterno no equilíbrio psicossocial dos filhos.

 

Os seres humanos manifestam a evidente necessidade de uma presença afectiva e educativa definida como “pai”. E isto é verdade, independentemente de quem a exerça. São muitas as mães que admitem: “Tenho que fazer de pai também…” Sabem bem o que significa e sentem todo o seu peso.

Amar é um verbo. E a paternidade conjuga-o de um modo que lhe é próprio. A primeira característica da paternidade é exprimir a força do amor. De um modo muito concreto.

A presença

O pai é o importante cabal de transporte para entrar na realidade. Os filhos sentem a sua presença como uma verdadeira necessidade. Um pai ausente ou afectivamente distante é visto como uma traição. Não é questão de tempo: é questão de comunicação verdadeira. A qualidade da relação de um filho com o pai parece ser o elemento mais importante para determinar de que modo essa pessoa reagirá no mundo. A mãe é um “ninho” quente. O pai empurra para fora, para o desconhecido, para o futuro.

A protecção

“As carícias do meu pai são ásperas porque as suas mães estão cheias de calos porque trabalha nas obras. Mas para mim são suaves como a seda porque gosta muito de mim”, diz uma criança de oito anos. A presença de um pai não é neutra. Um pai ama como uma mãe. Tem uma ternura que diz: “Aconteça o que acontecer, eu estou aqui para ti!2 E a presença de quem diz: “Não tenhas medo, eu estou aqui.” Assim nasce essa atitude vital entre pais e filhos que é a confiança e também o incrível impulso que tem sobre os filhos o alento paterno.

O modelo

O pai é, naturalmente, um modelo de “masculinidade para os filhos e para as filhas. Em certo sentido está chamado a fazer de espelho: os filhos sentem sempre o pai como exemplo forte e decidido. No passado, para transmitir os “valores” bastava impô-los. Agora, os valores devem ser demonstrados através da vida. Para os filhos, o pai é um depósito de sabedoria prática de vida; é aquele que conhece a meta e o caminho para a alcançar. Ele é o grande sinal de trânsito.

O gerador

Também o pai “gera”. A paternidade é uma forma de arte: a matéria é a humanidade e personalidade nascente dos filhos, rica de estímulos, assombros, sinais, sementes, talentos. A sua tarefa é dar forma a uma estrutura que permita uma verdadeira autonomia da pessoa. Um sistema de valores que faça de bússola. Um centro, uma consciência. E com o único instrumento apto para isso: a capacidade de pensar.

A autoridade

Há muitos livros com títulos do género “Como dizer não aos seus filhos…” ou “Se gostas de mim, diz-me não…” A coisa não é assim tão simples. É muito mais importante decidir quais são os grandes “sim” que os pais devem obrigatoriamente comunicar aos filhos.

Às vezes, um pai deve “emprestar” ao filho a sua força. Ampará-lo como o muro suporta a pedra.

O pai que quer aparecer só como o “melhor amigo dos seus filhos” (uma espécie de companheiro de jogos mas com rugas), serva para pouco. É uma atitude compreensível; mas que não ajuda nada aos filhos.

A autoridade não consiste em mandar. A palavra vem do latim e significa “ajudar a crescer”. A autoridade na família deveria, precisamente, ajudar os membros mais jovens a crescer, colocando-os em diálogo com o “princípio da realidade”.

Se os pais não ajudam os filhos a crescer com uma autoridade carinhosa, a preparar-se para serem adultos, serão as instituições públicas a impor o princípio da realidade. E não o farão com o afecto mas com a força. E deste modo apenas se obtêm crianças velhas e desobedientes; não cidadãos livres e adultos.

Há algo de desagradável em tudo isto. O choque com a realidade é, às vezes, fonte de medo. A maior parte das formas de aprender implica esforço. Crescer abre horizontes. Um pai é importante porque ajuda a superar as dificuldades.

Ninguém tem inatas as qualidades de um bom pai. Para chegar a sê-lo, é preciso paciência, atenção e amor. Mas poucas coisas são tão emocionalmente gratificantes como a alegria que um homem sente ao guiar os seus filhos, desde o seu nascimento até à sua autonomia.

E numa perspectiva de fé vale a pena pensar numa das mais significativas (e desafiadoras) frases do Evangelho: “Tudo o que fizerdes a um destes meus irmãos mais pequenos, a mim o fazeis” (Mt 25, 40).

 

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