Quando me sinto na gaiola

«Uffa!» Todos os meus amigos podem sair de casa quando querem e com quem querem, enquanto eu vivo pior que uma prisioneira. O meu pai zanga-se só com o facto de eu lhe pedir autorização para sair. Mas que querem os meus pais? Que eu viva como uma eremita? Pensam que eu não tenho o juízo suficiente para entender como me devo comportar? Não tenho cinco anos mas quinze e, às vezes, sinto-me exactamente dentro de uma gaiola».

Uma cena a não esquecer

Vamos começar um pouco atrás, porque muitas vezes é o único modo de ver os problemas sem antolhos… aqueles instrumentos tão úteis para os cavalos, mas tão prejudiciais aos quinze anos e sempre.
Quando a criança nasce, por si própria, não sabe fazer nada. Felizmente estão ao seu lado os pais: fazem-lhe tudo e ela não se lamenta. Se a abandonassem, nem que fosse por pouco tempo, a criança ficaria marcada para toda a vida. Passam assim catorze longos anos e os pais estão sempre ali, prontos para o que for necessário.
E eis que chegam os quinze anos. O «pequeno» apresenta-se aos pais e, sem meios termos, comunica: «Eu, esta noite, vou sair!».
O pai e a mãe caem das nuvens com uma grande queda: «Como é que sais se nós estamos em casa?». «Saio sozinho!».
Buuum! Encontro terrível entre duas manei­ras diferentes de ver o mesmo facto. Há algo que se assemelha a dois que discutem furiosamente porque, enquanto um tem a certeza de que o copo está cheio, o outro jura que, pelo contrário, está vazio.
Os pais não conseguem perceber que o filho já deixou de ser o «pequenino» que necessita de tudo.
O filho não sonha sequer em colocar-se do ponto de vista dos pais.
«Tu, sozinho, não sais!».
«Saem todos, e só eu não posso sair!».
Gritos, portas batidas, lágrimas, terramoto!
É uma cena estupenda!
Não, não entendestes mal. É, verdadeiramente, uma cena estupenda porque, se não sucedesse assim, queria dizer que nesse terceto não havia amor.
Não acreditais? Escutai o que vos vou contar. Encontrava-me com um grupo de raparigas de uma grande cidade e todas se lamentavam, com as lágrimas nos olhos e a raiva no coração, porque os pais não as deixavam sair de casa e que, se por vezes concediam alguma breve excepção à regra, estragavam tudo pois ficavam à sua espera ansiosos: «Regressas a esta hora? Depois não me peças para sair outra vez!».
Havia uma jovem com uma longa cabeleira. Estava calada.
«Tu não dizes nada?». Respondeu com um suspiro: «Oxalá eu tivesse alguém para esperar por mim e para me repreender por ter chegado tarde!». Os seus pais estavam divorciados e ela, que andava de um lado para o outro, podia sair a todas as horas que queria.

Partir com o pé direito

Que estais a dizer? Não é verdade que eu estou do lado dos pais e que quero calar-vos com a história da «pobre orfãzinha». Eu digo que é preciso aprender a amar os problemas que a vida nos põe diante porque, amando-os, já se está a caminho de uma solução.
Amar «este» problema significa olhá-lo com simpatia porque é um sinal de crescimento; significa entendê-lo nos seus verdadeiros termos.
Vamos lá! Nenhum de vós está convencido que os pais vos proíbem sair à noite porque estão contra vós, vos querem mal, vos odeiam, vos querem opri­mir e ter fechados na gaiola.
«Então?». Se o amor está na origem deste con­traste, a táctica para o superar deve ser baseada no amor.
Explico-me. Se os filhos se metem na barricada e atiram contra os pais choros, portas batidas, com­parações com outras famílias, chantagens («Então não estudo mais»), ameaças («Aos dezoito anos fugirei de casa»)… não partem com o pé direito.

«Mas os pais…»

Já sei. Vós dizeis: «Com os pais não se pode raciocinar!». Infelizmente é verdade que, preocupa­dos em arranjar o suficiente para vos alimentar e vestir (até porque vós não sois daqueles que pedem pouco!) por vezes os pais andam distraídos quanto aos problemas mais importantes dos filhos.
Sei que há sempre um pai que grita: «Eu sou o teu pai e, enquanto comeres à minha custa, sairás apenas quando eu quiser!». Esta não é a forma mais «elegante» de manifestar o amor.
Há também aquele pai que exerce a autoridade uma vez, sete vezes, trinta vezes, depois explode: «Vai para onde quiseres; sai com quem quiseres; não me apareças mais à minha frente! Discutir contigo é o mesmo que catar pulgas a cães! É inútil! Uma pessoa esforça-se pelos filhos e depois…». Uma outra forma pouco «fina» de expressar o amor.
Mas há filhos que… Dispenso-me de apresentar a lista, porque a conheceis bem.

Cara liberdade! liberdade cara!

«Tu falas, falas, mas não nos dizes nada!», pen­sais vós. Não é verdade. Não vos dou «receitas», mas estou para vos dar um conselho que é um «tesouro». A liberdade nunca foi oferecida a ninguém numa bandeja: foi sempre conquistada com sacrifícios e lutas.
Também os filhos a devem conquistar. Não podemos pretendê-la como um presente dado de um dia para o outro. Vamos, não façais vítimas!
Será afinal tão difícil «lutar» com os pais que resistem sempre «por amor»?
Ou queríeis que os pais fossem como blocos de cimento, sem apreensões, sem temores, sem ciú­mes… sem coração?

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