Olhar(es): um conto de Natal

Olhar(es)

 Caminhando pela rua vi pessoas apressadas, que se cruzavam sem se olharem, sem se (re)conhecerem.
 É chegada a época natalícia, e todos correm para os estabelecimentos comerciais, mesmo que seja, mais para comprar com os olhos, do que com dinheiro, pois este vai escasseando nos bolsos ou nas contas bancárias (daqueles que ainda têm sorte de as possuir).

Entro num autocarro disposta a olhar de verdade para as pessoas, até porque preciso do argumento para escrever este texto.
 Faço a boa acção do dia, ajudando uma senhora com bastante idade, e peso, a subir para o autocarro. Esta sorriu com os lábios e com os seus olhos verdes imensos. Sorri também. Ela disse-me: “Era isso que eu precisava!”
 Tocou-me essa frase pelo seu tom de voz, pela ternura do seu rosto, e por intuir que o que ela precisava (e todos nós também, em algum momento) era uma mão sempre por perto, um sorriso que lhe renovasse a esperança.
 Dirigi-me para o fundo do autocarro e sentei-me junto à janela, para poder olhar também para fora (de mim).
 Sentou-se uma senhora ao meu lado. O trânsito estava infernal. Esta fez um comentário banal e eu respondi-lhe. Então, a senhora deitou cá para fora todas as suas preocupações. Começou pelo trânsito congestionado, passou pelos eternos buracos da cidade do Porto, pela campanha para as eleições presidenciais, para terminar na falta de dinheiro, nas dificuldades que teve para pôr os filhos a estudar, para agora eles fazerem parte da lista dos desempregados. E mais não disse pois, entretanto, chegou a sua paragem.
Bastou apenas um sinal para ela compreender que eu estava ali, que estava mesmo a escutar, para ela abrir a sua alma. E às vezes é apenas isso que as pessoas precisam, de alguém que lhes dê atenção.
Depois, sentou-se junto a mim uma senhora idosa e franzina. Trazia um grande saco plástico preto, mas aparentemente quase vazio. Abriu-o e tacteou, com a mão pouco ágil, até encontrar um pequeno embrulho com um papel colorido. Ficou longos minutos a olhar para ele, de todos os prismas possíveis e imaginados. Abriu o papel com todo o cuidado para não o rasgar. Era uma caixa branca de cartão. Encostou-a contra o peito e ficou assim perdida nos seus pensamentos e emoções. Depois, tentou a abrir a caixa, mas deteve-se a contemplá-la mais um pouco. Como se a magia se quebrasse, se ela tocasse o mistério guardado naquela pequena caixa!
Eu olhava-a, de soslaio, tentando conter a minha curiosidade, e perceber o porquê daquela espera…
Finalmente abriu, espreitou, sorriu e voltou a fechar. Não cheguei a satisfazer a minha curiosidade, mas entendi que o Natal veio mais cedo para aquela mulher.
O Natal chega quando temos coragem de desembrulhar o maior presente que alguém nos ofereceu, a vida. Depois de nos desenvencilharmos dos papéis, das fitas, das aparências, iremos descobrir lá dentro, no mais fundo de nós mesmos, o Amor!

        Graça Borges
        05/12/16

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